Flor de lótus, a flor de Buda!

21/março/2013

Nome cientifico: Nelumbo nucifera
Nomes populares: lótus-do-egito, lótus-da-índia, lótus sagrado
Origem: sudeste da Ásia (sobretudo Japão, Índia e Filipinas)
Altura: pode atingir mais de 1,5 metro acima do nível da água
Floração: dezembro e janeiro
Multiplicação: por meio de sementes ou divisão dos rizomas
Luminosidade: sol pleno

Ainda está escuro e o céu limpo avisa que será mais um dia de sol quente, como quase todos na colônia Mombuca, no interior de São Paulo. Quando o céu começa a clarear, pode-se ver melhor a plantação de flor de lótus. As plantas são altas e nascem no meio de um charco. Podem-se ver os grandes botões prontos para abrir. Alguns são completamente brancos, outros têm um degrade de rosa. Sobre as largas folhas, muitos pássaros aguardam a hora de partir. O tempo é de espera: ocasionalmente, turistas vêm de longe para observar o desabrochar do lótus, que só acontece entre dezembro e janeiro. Um costume que se repete todos os anos no Japão, de onde as primeiras sementes foram trazidas. Depois de longos minutos de observação, um sol dorminhoco começa a surgir. E, como se se espreguiçasse, espalha devagar sua luz suave sobre as flores, ainda respingadas do orvalho da noite. Nessa hora, quem madrugou para ver o lótus se abrir percebe que tem companhia: as abelhas já estão agitadas, rodeando os botões, também a espera do desabrochar.

Localizada no município de Guatapará, a 65 quilômetros de Ribeirão Preto, Mombuca é um bairro rural, fundado por um grupo de 12 famílias de imigrantes vindos do Japão em 1962. Hoje, são 118 famílias japonesas (e 250 brasileiras), que se dedicam a várias atividades rurais: cultivam arroz, milho, banana, flores ornamentais, cogumelos… Estavam buscando opções às dificuldades que seu país ainda enfrentava no pós-guerra. Não foi exatamente um bom negócio. Pouco tempo depois, seguindo ao sucesso das Olimpíadas de Tóquio, em 1964, o Japão iniciou uma trajetória ascendente de desenvolvimento econômico, até tornar-se o país rico que é hoje. Alguns colonos não negam que se arrependeram. Mas, já instalados no Brasil, não encontraram outra opção que não fosse transformar as terras compradas em uma colônia próspera. Na união social, mantêm ainda hoje velhos hábitos, como a predominância do idioma natal, as comemorações anuais, o esporte. O ponto central dessa união é a sede da Associação Agrocultural e Esportiva de Guatapará, fundada em 1968. Lá, os colonos trocam informações, organizam festas, recebem apoio, tomam um chá. É também o local onde as crianças têm aulas de língua japonesa e as senhoras ensaiam danças típicas. Entre as tradições mantidas está a ikebana.

 Mioko Takagi, antiga moradora, convida Emiko Kiozuka, mestra em ikebana, para uma visita a plantação de flor de lótus, logo ao amanhecer. É nesse horário, quando o sol já está de todo acordado mas ainda não criou força, que os botões abrem suas pétalas, como se despertassem de um sono tranquilo. Em poucos minutos, a plantação está plenamente florida e as abelhas se divertem mergulhando nos miolos finalmente a mostra. No fim do dia, a maior parte estará novamente fechada, para, na manhã seguinte, repetir o ritual. Mas sua beleza é efêmera. Ao final de quarenta e oito horas, as pétalas caem. Esse processo lembra o preceito budista da impermanência, que diz que tudo na vida está em constante transformação. Mioko e Emiko conhecem bem esse preceito e se apressam para escolher as flores e botões mais uniformes, antes que eles mudem de humor. Já em casa, elas vão montando delicados arranjos em vasos apropriados. Não basta escolher as flores mais bonitas, o arranjo segue uma sequência simbólica, já que a ikebana surgiu como uma espécie de oferenda espiritual. E a flor de lótus cabe muito bem nessa tradição, já que é considerada sagrada na Ásia por ser associada a várias simbologias espirituais. Emiko, que é esposa de um monge budista, explica, com um sorriso calmo, parte dessa simbologia: 'O Buda mora na flor de lótus'. São colocados nos vasos, além de folhas, os botões, as flores e as cápsulas de sementes que tomam forma depois que as pétalas caem. Eles representam respectivamente o futuro, o presente e o passado. Esses minutos gastos na montagem de uma ikebana são preciosos, são o tempo da harmonia.

Aproveitando o apelo estético, Otaíde Vieira de Souza fornece flores para floriculturas. Em acordo com o floricultor Wilson Takagi, que parte para cidades maiores levando suas orquídeas, Otaíde escolhe cuidadosamente alguns botões e cápsulas de sementes para serem usados em arranjos. Mas isso é uma exceção, os produtores de flor de lótus, curiosamente, não se preocupam muito com esse tipo de venda. É que essas plantas, apesar de sua beleza exuberante, não são cultivadas para uso ornamental. Elas estão ali para produzir alimentos. Pois é… alimentos!

 

Seus rizomas – parte do caule submerso – são transformados em tradicionais pratos da comida japonesa. Conhecidos como renkon (ou lenkon, na pronúncia dos japoneses de Mombuca), são utilizados fritos, refogados, em sopas, em bolinhos de carne. A textura é macia e fibrosa, semelhante ao broto de bambu, e o sabor é leve. O senhor Souza, que planta o renkon há mais de vinte anos, lembra uma grande vantagem: é um cultivo isento de qualquer aditivo químico. 'É um produto que tem mais saúde, é natural.' Para os produtores, o lucro é grande, já que a raridade do produto permite um preço elevado. Nos tempo da colheita, entre março e novembro, uma caixa com cerca de 20 quilos fica em torno de 35 a 60 reais, mas fora de época (como agora), pode chegar a 120 reais. Mas não é um cultivo dos mais fáceis. Plantar não é o problema, mas a colheita sim. É preciso enfrentar o charco e entrar sem medo nas águas escuras que lhe servem de base. Então, enfiar as mãos enluvadas para buscar os rizomas. Tudo sob um sol ardente. Natural do Japão, Noritada Miyasaki chegou ao Brasil há mais de 40 anos, já que sua família fazia parte das primeiras que formaram a colônia. Para garantir um bom retorno financeiro, Miyasaki beneficia parte de sua produção, agregando valor. Modesto e discreto, ele diz que não ganha muito dinheiro. Mas a verdade é que desde 1991 ele abandonou o plantio de milho e soja para se dedicar a essa cultura. Ele é um dos quatros produtores de renkon da Mombuca. Agora, bote reparo neste detalhe: no mundo todo, a flor de lótus raramente é cultivada. Natural da Ásia, é abundante em todo o continente. Mas o cultivo com fins comerciais quase não existe. No Brasil, então, é ainda mais raro. Em grande escala, apenas em Mombuca. Ver a plantação florida, no curto período em que isso ocorre, é realmente uma oportunidade rara.

Por isso, de tempos em tempos, turistas vêm de longe para observar esse momento único. Em dezembro de 2008, um ônibus lotado veio da capital paulista. Eram praticantes de ikebana que ficaram um longo tempo na beira do charco a espera de ver as flores desabrocharem dando boas-vindas ao dia que começa. Quem madruga com essa boa vontade pode não encontrar Buda meditando sobre as pétalas. Mas compreenderá porque essa flor é considerada sagrada: há mesmo algo de divino na sua imponente e delicada presença.

Fonte: Revista Globo Rural – Edição 280 – Fev/09

 

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