O roubo da couve-flor – Yogananda

22/outubro/2014

Neste lindo trecho retirado do livro AUTOBIOGRAFIA DE UM IOGUE CONTEMPORÂNEO, Yogananda conta, nesta passagem divertida de sua vida, sobre uma “lição” que seu mestre Srí Yuktéswar lhe deu, mostrando que a intuição é o guia da alma, e que esta surge com naturalidade no homem, nos instantes em que a mente se acalma…um aprendizado profundo, mostrando mais uma vez como o silêncio é vital para uma vida feliz e conectada!

“-Mestre, um presente para o senhor! Estas seis enormes couves-flores foram plantadas por minhas mãos; cuidei de seu crescimento com ternura de mãe que aleita e cria seu filho. – Apresentei a cesta de vegetais com um gesto floreado e cerimonioso.
– Obrigado! – O sorriso de Srí Yuktéswar era de calorosa apreciação. – Por favor, guarde-as em seu quarto; precisarei delas amanhã para um jantar especial.
-Eu acabava de chegar a Puri121 para gozar minhas férias de verão em companhia de meu guru, em seu eremitério à beira-mar. Construído pelo Mestre e seus discípulos, o alegre e pequenino retiro, com um andar superior, dá frente para a baía de Bengala.
Acordei cedo na manhã seguinte, reanimado pela salgada brisa marinha e o encanto quieto do
áshram. A voz melodiosa de meu guru estava chamando; dei uma vista de olhos às minhas estimadas couves-flores e acondicionei-as com esmero sob meu leito.
– Venham, vamos à praia. – O Mestre seguia em frente, mostrando o caminho; diversos discípulos jovens e eu o seguíamos, em grupo esparso. Nosso guru nos examinava com brando espírito crítico.
– Quando nossos irmãos ocidentais caminham, timbram comumente em “acertar o passo”. Agora,por favor, marchem em duas fileiras; conservem todos o mesmo passo, ritmicamente. – Srí Yuktéswar observava se obedecíamos; começou a cantar: “Meninos marcham, ida e volta, em garbosa fileira”. Era-me impossível não admirar a facilidade com que o Mestre acompanhava o passo rápido de seus jovens estudantes.
– Alto! – Os olhos de meu guru procuravam os meus. – Você se lembrou de fechar a porta traseira do eremitério?
– Penso que sim, senhor.
Sri Yuktéswar permaneceu silencioso durante alguns minutos, com um sorriso meio reprimido em seus lábios. – Não, você se esqueceu – disse ele, afinal. – A contemplação divina não se deve tornar uma desculpa para o descuido material. Você descurou seu dever de salvaguardar o áshram; deve ser punido.
Julguei que ele estivesse obscuramente gracejando quando acrescentou: – Suas seis couves-flores, em breve, serão apenas cinco.
Demos meia volta, obedientes às ordens do Mestre, e represamos até as proximidades do
eremitério.
– Descansem um pouco, todos. Mukunda, olhe à esquerda, por entre o casario; observe a estrada além. Ali, certo homem aparecerá logo, e será o instrumento de seu castigo.
Escondi meu vexame ao receber estas indicações incompreensíveis. Um camponês logo apareceu na estrada; dançava grotescamente e movia os braços em torno, gesticulando sem sentido. Quase paralisado de curiosidade, não despreguei os olhos do hilariante espetáculo. Quando o homem atingiu um ponto da estrada, de onde desaparecia de nossa vista, Sri Yuktéswar disse: – Agora, ele dará mais volta.
O camponês imediatamente mudou de direção e dirigiu-se para o lado traseiro do eremitério.
Atravessando um trecho arenoso, penetrou na moradia pela porta dos fundos. Eu não a fechara à chave, conforme dissera meu guru. O homem saiu pouco depois, segurando uma das minhas preciosas couves-flores. Agora ele caminhava em atitude respeitosa, investido da dignidade de possuir.
A farsa que se desenvolvia, na qual meu papel parecia ser o de vítima assombrada, não era
desconcertante a ponto de me impedir a perseguição indignada ao ladrão. Eu tinha corrido metade do caminho quando meu Mestre me chamou de volta; sacudia-se de riso, da cabeça aos pés.
– Aquele pobre louco ansiava por uma couve-flor – explicou-me entre acessos de hilaridade. – julguei que seria boa idéia se ele obtivesse uma das suas, tão mal guardadas!
Corri para meu quarto onde descobri que o ladrão, evidentemente padecendo de uma fixação em vegetais, deixara intocados meus anéis de ouro, o relógio e o dinheiro, tudo exposto sobre o cobertor. Ele preferira engatinhar sob a cama, onde o cesto de couves-flores, completamente oculto ao olha casual, fora o alvo dócil de seu sincero apetite.
Pedi a Sri Yuktéswar, naquela noite, que me explicasse o incidente (por apresentar, a meu ver,certos aspectos perturbadores). Meu guru assentiu com a cabeça, lentamente. – Você compreenderá, algum dia. A ciência em breve descobrirá algumas destas leis ocultas.
Quando, alguns anos mais tarde, noticiou-se a maravilhosa descoberta do rádio ao mundo atônito, recordei-me da predição do Mestre. Antiquíssimos conceitos de espaço e tempo foram aniquilados; nenhuma casa era tão humilde e estreita que Londres ou Calcutá, nela, não pudessem entrar! A mais obtusa inteligência se ampliava ante a prova indiscutível de um aspecto da onipresença do homem.
O “enredo” da comédia da couve-flor pode ser entendido melhor por analogia com o rádio122. Meu guru era um perfeito rádio humano.
Os pensamentos nada mais são que vibrações autilíssimas movendo-se no éter. Exatamente como um rádio sintonizado capta o número musical que se deseja, em meio a milhares de outros programas, irradiados em todas as direções, Sri Yuktéswar fora um receptor sensível a determinado pensamento (o daquele homem simplório, ansiando ardentemente por uma couve-flor), em meio aos inúmeros pensamentos das mentes humanas emissoras em todo o mundo. Durante a marcha rumo à praia, tão logo captou o singelo ensejo do campônio, o Mestre desejou satisfazê-lo. O olho divino de Sri Yuktérwar descobrira o homem, dançando ao longo da estrada, antes de tornar-se visível aos discípulos. Meu esquecimento de trancar a porta do áshram dera ao Mestre uma desculpa conveniente para me privar de um de meus valiosos legumes. Depois de assim funcionar como instrumento receptor, Sri Yuktéswar então operou, através de sua poderosa mente, como estação emissora ou radiodifusora. Neste desempenho, ele pudera dirigir com êxito a inversão de rumo do camponês e seu encaminhamento para meu quarto, até uma única das flores comestíveis.
A intuição, que é o guia da alma, surge com naturalidade no homem, nos instantes em que a mente se acha calma. Quase todos já tiveram a experiência de um pressentimento inexplicavelmente correto, ou transferiram seus pensamentos com exatidão a outra pessoa.
A mente humana, quando liberta das perturbações ou da “estática” da inquietude, tem o poder de realizar todas as funções dos complicados aparelhos de rádio – enviando e recebendo pensamentos ou deixando
de sintonizar os indesejáveis. Assim como a potência de uma estação radiodifusora é regulada pela quantidade de energia elétrica que pode utilizar, a eficiência de um rádio humano depende do grau de força de vontade de cada pessoa.
Todos os pensamentos vibram eternamente no cosmos. Por meio da concentração profunda, um mestre pode descobrir os pensamentos de qualquer pessoa, viva ou morta. Os pensamentos têm raízes de universalidade e não de individualidade; uma verdade não pode ser criada, mas apenas percebida. Todo pensamento errôneo de um homem resulta de uma imperfeição, pequena ou grande, em seu discernimento.
O objetivo da ciência da ioga é acalmar a mente, de modo que, sem distorções, esta possa ouvir o conselho infalível da Voz Interior.
O rádio e a televisão trouxeram a voz e a visão instantâneas de pessoas remotas, ao convívio de milhares de ouvintes e de espectadores: as primeiras débeis insinuações científicas de que o homem é espírito onipenetrante. Embora o ego, nas mais bárbaras formas, conspire para escravizá-lo, o homem não é um corpo confinado a um ponto no espaço, mas e, em essência, alma onipresente.

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